A LÍNGUA DE SINAIS
Durante muito tempo a pesquisa em língua de sinais tomou como referência, e ainda toma, a linguagem oral. Ou seja, tal língua não era analisada isoladamente, e sim como um “esboço” ou um simulacro da língua oral. Isso resultava em comparações que a depreciavam: vocabulário reduzido, falta de artigos, preposições etc.
Não há línguas mais simples ou primitivas, há linguas diferentes.
Tem-se discutido a língua de sinais como se fosse uma língua homogênea – “a
lingua dos surdos”. Entretanto ela também tem suas variáveis. Essas variáveis se referem ao aspecto semântico diferenciado ( por exemplo, os sinais de mãe e de pai podem sofrer algumas diferenças regionais).
Os pais percebem essa diferença entre os sinais que fazem e a língua dos filhos. Percebemos isso nesse pequeno texto em que uma mãe relata seu contato com a filha surda.
MÃE: Porque os sinais é uma lingua. [...] A gente sente, se não for praticada vai ser esquecida. Eu não faço aulas todos os dias. Ela vai todo dia. Todo dia ela vai ser impactada por uma palavra nova, não sei o que, então as vezes eu fico perdida, ela faz um gesto. Aí, não, “O que é isso?”. “Você não aprendeu ainda?” “Não, não aprendi, Taís, só tenho uma hora de aula por semana, você tem todos os dias, cinco horas de aula.” [...] É complicado porque não é a minha língua, eu tô aprendendo por causa dela. E eu assim, eu tenho tendinite. Aí, é duro fazer os sinais. Dói a minha mão, então é por isso que eu tento muito falar. Eu sou muito faladeira [...] Vamos exercitar. “ O coelho da páscoa foi na minha casa.” Eu montei a frase lógica. A Taís não. “ Minha casa, coelho páscoa foi.” Gente, ela fez libras, que é uma língua totalmente assim... Não tem um raciocínio lógico. Porque ela não aprende assim: Mamãe, eu vou ao banheiro”. Como ela fala: “Banheiro vou mamãe.” E aí? Toda a língua deles é truncada, é ilógica. Como eu falo de um jeito e escrevo de outro? É diferente. A gente em português não. Eu “sabo”. A gente vai arrumando a criança. “Não é eu sabo”, eu sei, mas não tem eu sei”. A Taís de repente fala: “Inês onde?” [...] Eles não têm os artigos. “Bolo de chocolate”. “Bolo chocolate”. Cadê o “de”? Não tem. Essa junção de palavras não tem. Pra eles a língua deles é: passei a idéia, o conteúdo o contexto, tá bom. Só que eu aprendo português digitalizado, não aprendo libras [...] E u aprendo a montagem da frase com nossa lógica do português, que é diferente da dela. Aí começa a dar confusão, porque eu quero falar com ela na lógica.
Pra ela é mais cômodo o sinal, é óbvio. Só que na cabeça da Taís, o sinal é uma língua que todo mundo sabe...
Como você vê a mãe faz uma dinstinção bastante clara entre a língua de sinais e a linguagem oral. Essa discriminação não é particular da mãe de Taís, ela é apenas porta voz de um discurso que já virou senso comum em nossa sociedade. Portanto não se pode comparar línguas de estruturas diferentes e categorizá-las como simples, complexas, lógicas ou ilógicas. Para os surdos que usam a língua de sinais, essa é a sua língua e, portanto a que desejariam que todos soubessem.
Nunca deixe um surdo falando só, por mais que você não compreenda o que ele está falando, procure lhe dar atenção, só isso já fará um grande efeito.

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