sexta-feira, 16 de setembro de 2011

ADOLESCÊNCIA E SURDEZ


A adolescência é uma fase considerada bastante conflituosa, uma etapa de desorganização e instabilidade emocional, caracterizada pelo processo biopsíquico a que a criança, que adentra a juventude, está destinada. Nesse período de tempo que caracteriza a adolescência, são observadas modificações em pelo menos três áreas: no corpo, na mente e no ambiente.
De acordo com Aberastury e Knobel (1981), tanto as modificações corporais incontroláveis como os imperativos do mundo externo, que exigem do adolescente novas formas de convivência, são vividos, no começo, como uma invasão. O adolescente desorganiza os aspectos de sua personalidade para organizar sua identidade, pois não se trata de uma criança e ainda não ingressou na idade adulta e isto gera conflitos.
Para Serrão e Baleeiro (1999), é certo que a adolescência é um período que merece atenção e cuidado, principalmente dos pais, educadores e profissionais de saúde.
A formação da identidade exige a aplicação de grande parte da energia do indivíduo, sendo o autoconceito um importante componente para o processo de identificação do adolescente. Na adolescência, vivenciada pelo deficiente auditivo, há a possibilidade de agravamento das tensões, devido aos problemas que afetam sua comunicação e entendimento com o ambiente, em geral composto por indivíduos ouvintes.
Para o adolescente deficiente auditivo, o processo de formação da identidade tem nuances próprias, de modo que, além do conflito específico da fase, ele tem que formar sua identidade como pessoa que possui uma perda auditiva. O autoconceito exerce papel fundamental nesse processo, pois o adolescente só vai definir quem ele é e formar uma identidade a partir da visão que tem de si mesmo, ou seja, de seus aspectos negativos e positivos.
O autoconceito é considerado uma organização hierárquica e multidimensional de um conjunto de percepções acerca de si próprio. O conteúdo dessas percepções, isto é, tudo aquilo que o indivíduo reconhece como parte de si, é adaptável e regulado pelo dinamismo individual, pelas características da interação social e pelo contexto situacional (TAMAYO, 1981). Assim, o autoconceito reflete uma visão mais racional de si próprio.
Segundo Branden (2000), nosso autoconceito é quem e o que, consciente ou inconscientemente, achamos que somos, ou seja, nossas características físicas e psicológicas, pontos positivos e negativos e, acima de tudo, a auto-estima, que é o componente avaliador do autoconceito.
Portanto, o autoconceito compreende um conjunto de percepções, sentimentos, imagens, auto-atribuições e juízos de valores referentes a si mesmo, envolvendo funções perceptivas e ativas e implicando na participação do indivíduo para defendê-lo, conservá-lo e desenvolvê-lo. Desse modo, o autoconceito é fundamentalmente dinâmico, está sempre inacabado, continuamente em construção e cotidianamente em revisão e adaptação às exigências sociais.
Para Sánchez e Escribano (1999), o autoconceito influi na relação com os outros, consistindo em um fenômeno social, uma vez que a partir das imagens refletidas pelo outro é que o indivíduo se descobre, se estrutura e se reconhece.
O autoconceito também determina a trajetória do indivíduo, pois a visão mais profunda que tem de si influencia todas as escolhas significativas e as decisões, determinando o tipo de vida que o mesmo cria para si.
Devido a essa multiplicidade de fatores, o autoconceito vem sendo considerado, na literatura, um constructo multidimensional que envolve diversos aspectos afetivo-emocionais (BRANDEN, 2000).
O Centro de Distúrbios da Audição, Linguagem e Visão (CEDALVI), serviço do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC), da Universidade de São Paulo (USP), atende pacientes com deficiência auditiva e visual, com o objetivo de proporcionar aos mesmos condições de habilitação, reabilitação e integração, por meio de atendimento especializado, diagnóstico, encaminhamento terapêutico e/ou indicação e adaptação do Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI), através de uma equipe multidisciplinar (MOTTI, 2000).
De acordo com Almeida e Iório (2003), a prótese auditiva, embora seja apenas um dos componentes no tratamento do deficiente auditivo, é a pedra fundamental dos processos de habilitação e reabilitação auditiva.
A experiência clínica no Setor de Psicologia do CEDALVI, nos atendimentos aos adolescentes com deficiências auditivas, tem mostrado que o uso do AASI muitas vezes é interrompido ou prejudicado justamente na fase da adolescência até mesmo quando criança esse aparelho já foi usado efetivamente, na fase da criança.
Com a entrada na adolescência, esse recurso, embora necessário, torna-se uma grande preocupação para o indivíduo. A atitude de escondê-lo e de insistir na adaptação de um aparelho de tamanho reduzido, dá indícios do desejo de sua ocultação. Ainda assim, existem adolescentes que não prescindem de seu uso visto o benefício obtido, preferindo enfrentar qualquer situação, mesmo as que os façam parecer ''diferentes''.
De acordo com Fonseca et al. (2001), a percepção de si mesmo como diferente pode ser uma experiência difícil para o adolescente. Os autores lembram que a adolescência é uma fase da vida em que se observa uma certa homogeneização entre os jovens, que se fazem parecidos para se sentirem parte do grupo. O modo de se vestir, os hábitos, a identificação com determinados ritmos musicais e as gírias utilizadas tornam-se semelhantes entre os jovens, nos diferentes grupos sociais. Nesse contexto, carregar uma diferença pode se tornar penoso nessa fase naturalmente marcada por conflitos.
Às situações emocionais de lidar com a aceitação da deficiência e do conceito sobre si mesmo, soma-se a necessidade de uso do recurso de amplificação sonora. O mais comum desses recursos, utilizado no tratamento do deficiente auditivo ainda é o AASI, em modelo retroauricular, que se encaixa atrás da orelha. Dessa forma, se a deficiência auditiva não é visível de imediato, o uso do AASI faz com que ela seja notada.
Almeida e Iorio (2003) afirmam que a prótese auditiva tem como finalidade primária a amplificação sonora da forma mais adequada e satisfatória possível, sendo o instrumento utilizado para facilitar a educação e o desenvolvimento psicossocial e intelectual do deficiente auditivo. Nesse sentido, para Fonseca et al. (2001), os aparelhos são "a marca da deficiência", despertam curiosidade e colocam o usuário em evidência, de modo que seu uso influencia o autoconceito do indivíduo.
Há duas reações típicas que podem ser observadas no adolescente deficiente auditivo: a de evidenciar sua surdez logo no primeiro contato com um desconhecido, anunciando sua diferença, ou tentar escondê-la o máximo possível, às vezes evitando o convívio e se isolando.

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